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Brasil vence Japão de virada após 24 anos e avança às oitavas na Copa do Mundo

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Foram 24 anos aguardando por um roteiro como esse. Desde a virada sobre a Inglaterra, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2002, o Brasil não conseguia reverter um placar adverso em um jogo eliminatório de Mundial. Nesta segunda-feira (29/6), diante do Japão, a Seleção finalmente quebrou esse jejum ao vencer por 2 a 1, de virada, garantir vaga nas oitavas de final e, principalmente, mostrar que encontrou algo que faltava em tantas eliminações recentes: força mental para superar a adversidade.

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Mais do que a vaga, a partida foi um teste emocional para uma geração frequentemente marcada por derrotas em momentos decisivos. Após cair para Bélgica, Croácia e conviver com críticas pela dificuldade de reagir quando o jogo saía do controle, o time de Carlo Ancelotti encarou um cenário já conhecido. Levou um gol, viu o adversário se fechar e precisou encontrar soluções sem perder a organização.

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O início, inclusive, indicava uma atuação madura. Repetindo pela primeira vez a mesma escalação do jogo anterior, Ancelotti manteve a estrutura que havia dado certo contra a Escócia. O Brasil dominou a posse de bola, pressionou a saída japonesa, ocupou o campo ofensivo e praticamente impediu que o adversário desenvolvesse o jogo coletivo mostrado na fase de grupos.

Com a bola, o time variava para um desenho com dois zagueiros, uma linha de quatro no meio-campo e três jogadores mais avançados circulando atrás de Matheus Cunha, que alternava movimentos como falso nove. Sem a posse, recompunha rapidamente em um 4-2-3-1 sólido, sufocando as tentativas do Japão.

Bruno Guimarães comandava o setor central com muita personalidade. Lucas Paquetá quebrava linhas, Casemiro recuava entre os zagueiros para iniciar as jogadas, enquanto Matheus Cunha saía constantemente da área para criar superioridade numérica. O problema estava no último passe. O Brasil girava bem a bola, dominava o território, mas não conseguia transformar o volume em chances claras.

O Japão, por outro lado, mostrou inteligência. Aceitou ser pressionado, recuou suas linhas, montou praticamente uma defesa com cinco jogadores e passou a esperar justamente o erro do Brasil para acelerar pelos lados com seus pontas.

Foi exatamente assim que saiu o gol japonês. Após erro de passe na saída de bola, Kaishu Sano encontrou espaço, avançou em velocidade e finalizou forte para vencer Alisson. Em poucos segundos, toda a superioridade brasileira construída até ali sumia do placar.

Era justamente esse tipo de situação que assombrava a Seleção há mais de duas décadas. Desde a Copa de 2002, o Brasil não conseguia virar um jogo eliminatório após sair atrás. A dificuldade nunca foi só técnica. Muitas vezes, parecia emocional. O time demonstrava ansiedade, perdia a organização e deixava o nervosismo tomar conta do jogo. Foi assim em eliminações marcantes e até mesmo contra a Croácia em 2022, quando, mesmo abrindo o placar na prorrogação, não conseguiu segurar a vantagem por poucos minutos. Desta vez, porém, a resposta foi diferente.

Mesmo atrás no placar, a Seleção não abriu mão de sua proposta de jogo. Continuou controlando a posse, empurrando o Japão para o próprio campo de defesa e buscando espaços contra um adversário muito bem organizado. Ainda assim, o primeiro tempo terminou evidenciando uma limitação já percebida antes: muita circulação de bola, pouca agressividade para transformar o domínio em chances reais.

A mudança veio logo após o intervalo. A entrada de Endrick mudou o comportamento ofensivo do time. Mais do que números, o jovem atacante aumentou a intensidade, atacou espaços, acelerou jogadas e transmitiu ao resto da equipe uma sensação de urgência que faltou no primeiro tempo.

Ao mesmo tempo, Ancelotti fez uma leitura importante do jogo. Percebendo a dificuldade para infiltrar por dentro, passou a explorar sistematicamente os cruzamentos e as bolas aéreas, identificando um ponto fraco na defesa japonesa. Gabriel Magalhães começou a aparecer com frequência pelo lado esquerdo para levantar bolas na área, enquanto Casemiro passou a atacar esse espaço.

A estratégia deu resultado. Após cruzamento preciso de Gabriel Magalhães, Casemiro apareceu livre para empatar de cabeça. O volante, que havia feito um primeiro tempo ruim, transformou a atuação irregular em redenção ao marcar o gol em um momento decisivo.

O empate mudou completamente o clima da partida. O Brasil cresceu, passou a criar chances, acertou a trave com Vinicius Júnior após uma jogada espetacular do atacante, obrigou Suzuki a fazer grandes defesas e encurralou o Japão, que já tinha dificuldades para manter a posse.

Bruno Guimarães foi o grande maestro desse momento. Seguro na marcação, preciso na distribuição e muito inteligente ocupando espaços, o camisa 8 fez talvez sua melhor atuação na Copa.

Rayan também cresceu muito pelo lado direito, levando vantagem nos duelos individuais e dando profundidade ao ataque. Douglas Santos voltou a mostrar grande regularidade defensiva, enquanto Martinelli entrou disposto a pressionar, recompor e atacar os espaços.

Já Endrick mostrou personalidade, embora ainda demonstre certa ansiedade no último toque. Participou da construção das jogadas, acelerou o ritmo do time e ajudou a mudar o panorama ofensivo do Brasil.

Mesmo assim, o tempo passava, o Japão seguia muito fechado e o duelo ganhava contornos dramáticos. Até que, já na prorrogação, veio a recompensa pela insistência.

Bruno Guimarães achou Martinelli dentro da área. O atacante finalizou cruzado, venceu Suzuki e decretou a virada brasileira. O gol garantiu a classificação. Mas seu significado pode ser ainda maior.

É evidente que o adversário não tinha o peso das grandes seleções mundiais. Mesmo assim, o contexto era muito relevante. O Brasil precisava provar para si mesmo que podia reagir quando tudo parecia caminhar para mais uma eliminação traumática.

O dia em que o Brasil venceu a si mesmo

O futebol costuma reservar ironias que fogem aos planejamentos. Na campanha da Champions de 2022, Carlo Ancelotti acostumou o mundo a ver seu Real Madrid sobreviver quando parecia derrotado. Viradas improváveis, gols nos minutos finais e uma serenidade quase desconcertante diante do caos. Hoje, foi a Seleção Brasileira que viveu um roteiro parecido. Não foi uma atuação perfeita. Mas o teste de caráter é mais importante por simbolizar essa virada de chave que pode ser determinante daqui pra frente.

Bruno Guimarães foi o grande destaque da partida. Organizou, protegeu, criou, distribuiu e ainda encontrou Martinelli no lance que garantiu a classificação. Casemiro fez talvez seu pior primeiro tempo na Copa, errou passes, sofreu na marcação, parecia mais lento e pesado, mas respondeu como um grande jogador ao aparecer justamente quando o Brasil mais precisava.

Ancelotti insistiu na bola aérea, identificou a fragilidade japonesa e venceu o jogo na leitura. Endrick não resolveu a partida, mas mudou o clima. Entrou acelerando, incomodando, trazendo uma agressividade que faltava ao ataque brasileiro. Ainda mostra ansiedade no último passe, algo natural para quem disputa sua primeira Copa.

Enquanto isso, Neymar passou praticamente toda a noite apenas aquecendo. Pela primeira vez em muitos anos, o camisa 10 assistiu do banco a Seleção resolver um problema sem depender dele. Hoje, seu papel parece muito mais simbólico. O grupo encontrou outras lideranças, outras referências e outros protagonistas. Ele está ali quase como um animador de torcida emblemático.

Se a eliminação viesse, o desfecho seria lembrado como o ciclo mais frustrante da história recente da Seleção. Uma geração frequentemente acusada de faltar personalidade, identidade e capacidade de suportar a pressão dos grandes jogos. Em vez disso, encontrou justamente aquilo que mais lhe cobravam.

É verdade: foi “apenas” o Japão. Mas reduzir a importância da vitória ao tamanho do adversário seria ignorar totalmente o contexto. O peso estava no roteiro, em sair atrás pela primeira vez em um mata-mata de Copa desde 2002. Estava em enfrentar um fantasma que atravessou Bélgica, Croácia e tantas outras decepções. O Brasil precisava provar para si mesmo que sabia sofrer, reorganizar a cabeça e buscar a virada quando tudo parecia caminhar para mais uma tragédia esportiva.

O hexa continua distante. Há muitos problemas a serem corrigidos. O repertório ofensivo ainda precisa evoluir e a equipe segue longe de convencer totalmente. Mas, pela primeira vez em muitos anos, essa geração pode ter conquistado algo que vale mais do que uma simples classificação: mudança de espírito. Se essa vir

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